#Despedidas: Amor exausto

#Despedidas: Amor exausto

Este é o primeiro texto da série “Despedidas”, onde cada história é uma carta de despedida escrita por quem partiu ou por quem foi deixado ou por cá ficou. Algumas das cartas podem continuar em posts seguintes. Alerto ainda que a ideia é partilhar estes textos com revisão mínima, meio crus, para garantir alguma da espontaneidade inerente à escrita criativa em blogs.

A escultura em luz EDGE-LIT HEART que ilustra este texto foi criada pelo artista Craig Small e exibida no Toronto Light Festival 2019.
EDGE-LIT HEART por Craig Small – Foto tirada no Toronto Light Festival 2019

A primeira carta de despedida foi escrita pela Ana (personagem fictícia), cujo amor morreu de exaustão, em grande parte causada pelo trabalho.

Tenho tantas saudades tua, amor. Podes parar de jogas às escondidas e voltar para mim?

Estávamos casados há seis anos quando recebi uma chamada que esperava nunca receber. Sei que tivemos alguns anos duros, e que continuávamos a tentar ser melhores, por nós, mas dava tudo para ter os piores tempos de volta em vez deste vazio e desta dormência que me têem refém. Nunca pensei que uma vida inteira se esfumace em menos de um segundo. O meu corpo continua dorido, como se tivesse andado à porrada num bar qualquer, como se eu fizesse parte de um filme onde nunca me imaginei, e agora de ressaca de sabe-se lá o quê, que não me lembro de beber ou tomar o que quer que fosse para sentir este meu corpo rastejar.

Imagino que todos se perguntem o que raio aconteceu naquele terrível dia. Há quem possa pensar que simplesmente decidiste fugir ao passado e que me ligaste a dizer que ias começar do zero ou que tinhas encontrado outro alguém especial. Depois, há quem pense também que partiste e, foda-se, têm toda a razão.

Recebi aquela chamada horrível apenas um par de horas após te terem encontrado. Disseram-me que não trabalhavas há dois dias e que ninguém sabia de ti. Nem eu, que dor pensar nisso agora! Parecia que o meu coração já pressentia que algo estava errado, quando te ligava sem sucesso e não me ligavas de volta. Mas, amor, não pensei no pior, pensei apenas que estavas chateado por te ter pedido que passasses mais tempo comigo e menos a trabalhar longe de tanta coisa que te fazia sorrir. Eram saudades e desejos ingénuos a falar por mim. Queria que tivesses tempo para ti também, para relaxares e seres feliz, para chamares o mundo de amigo, para viveres, para seres tu e matares esse robô corporativo e mal pago que já se ia desmontando aos poucos sem que ninguém desse conta.

Quando me perguntam como me sinto, nem sei bem o que responder, porque já tinha perdido parte de ti faz tempo, ainda que sempre tenha imaginado recuperar tudo isso um dia. Verdade seja dita, vivíamos juntos por uma semana sempre que voltavas a Madrid, depois de quatro semanas em Toronto, Vancouver ou qualquer outra cidade para onde te mandassem ir. Tentei acompanhar-te e segui-te cegamente, mas depressa percebemos que seria melhor voltar para casa e estar perto de quem tivesse tempo de sobra para mim, para depois estar contigo sempre que voltasses. Mas, depois, chegavas sempre cansado da viagem (consegue alguém imaginar o que faz viajar todos os meses naqueles lugares apertadinhos de económica?), das viagens anteriores e do stress que se acumulava mês após mês, das noites sem dormir e das luz constante das cidades que nunca dormem… pelo que não podemos dizer que aquela semana era realmente tempo de qualidade, pois não?

Desculpa-me, estou simplesmente perdida nestas palavras e em memórias aleatórias, principalmente más, eu sei, culpa desta tristeza e revolta por ter que te deixar ir mesmo quando tudo fiz para não te perder nunca. Esta é a carta que te escrevo, a tentar dizer-te adeus, mas não é certamente o que direi amanhã no teu velório, enquanto o meu coração se agarrar a memórias boas na tentativa de recuperar o fôlego e a luz de outrora. É suposto dizer coisas bonitas sobre ti, mas neste momento só consigo focar-me na vida que te roubaram, mas que aceitaste como se não pudesses fazer nada para contrariá-lo, e que me fez ficar sozinha agora. Queria tanto que estivesses aqui para seres tu a falar de ti e de tantos mistérios que até eu desconhecia, mas sei bem que isso não é possível… Farei o meu melhor para contar a todos como levaste a vida, meu amor!

Entretanto, é esta a forma de dizer adeus… mas, por favor, não desistas de nós, onde estiveres, que ainda preciso tanto de ti!

Com amor,
Ana

Fico à espera dos vossos comentários e sugestões abaixo 🙂 pois gostava mesmo de saber a vossa opinião e o que sentem sobre os temas e textos partilhados. E se alguém estiver interessado em colaborar num texto futuro, contactem também!

Obrigada e até breve,
Andreia

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *